quinta-feira, 1 de maio de 2008

Pior que ele não ter ligado para durmir com você,
foi você ter dormido com o celular esperando que ele ligasse...
Eu nunca mais vou voltar

Eu prometi voltar mais magra, de cabelos longos. Prometi voltar agora dominando saltos altos e caríssimos. Sem medo do saltinho fino entrar em algum buraco da rua ou da vida.

Jurei a mim mesma que voltaria sem essa mancha na minha bochecha direita e com um gosto melhor para calças jeans.

Combinei que na minha volta eu estaria com a voz mais firme e sexy. E que eu jamais usaria decote porque voltaria mais elegante e mulher.

Combinei que usaria um perfume diferente e uma postura diferente. Talvez eu chegasse com um carro novo e, com muita sorte, um novo amor. Talvez livre de todos os meus pêlos e dores no ombro e buraquinhos na bunda. Talvez livre de mim, afinal. Em silêncio, finalmente. Aceitando quem eu sou, sem essas 345 mulheres que brigam aqui dentro da minha cabeça.

Mais rica, mais segura, mais amada, mais viajada, mais feliz. Falando francês, falando sem as mãos estabanadas, falando sem medo das ruguinhas que formam no canto dos meus olhos. Falando sem acariciar frustrada uma zona irregular que separa minha cintura da perna. Eu voltaria mais redonda e mais magra, numa mistura que só quem é mulher entende.

Eu calaria a boca de todos que levaram minha luz e me deixaram na escuridão. Melhor: eu cegaria os olhos desses com uma luz que eles não seriam capazes nem de chegar perto.

Dos amigos que sempre tiveram medo da minha verdade, quando deveriam, na verdade, ter medo da mentira que faz o mundo parecer tão fácil de se viver. E os faz parecer tão incríveis e eu tão estranha.

Olha lá ela. Eles diriam. Quem é ela? Não parece mais ela. O cabelo tomou jeito. O pé não cai mais para dentro. O bumbum arrebitou. A voz é de seda e deixa tudo no mistério. Ela não se escancara mais.

E assim eu voltaria. Sem precisar de ninguém, sem precisar de ombros, das mãos, do beijo, da aceitação e das respostas de ninguém.

Eu prometi voltar. Acordei todos os dias caminhando para essa volta. Me esfreguei no banho prometendo, esperando o dia em que eu trocaria de pele e sairia voando. Ouvi músicas e vi filmes de vitória, sonhando com o dia. Decorei falas, roupas, olhares, cheiros.

Mas, infelizmente, isso nunca vai acontecer. Quanto mais eu me aproximo do que seria a minha volta, mais longe eu estou de querer voltar. Quanto mais eu me recupero do que doeu tanto, menos vontade eu tenho de causar dor em alguém. Esse desejo incontrolável de voltar é apenas a vida me dizendo para andar pra frente e não voltar nunca mais.


Tati Bernardi
MUDE

Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante que a velocidade.


Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.


Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas, calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde você passa.



Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.


Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.


Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a ão esquerda.


Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.


Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...leia outros livros,
Viva outros romances.


Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.


Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.


Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.


Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.


Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.


Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.


Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.


Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.


Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.


Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.


Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.


E aproveite para fazer uma viagem
despretensiosa,
longa, se possível sem destino.


Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.


Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.


O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda ! !

Clarisse Lispector
Mais uma vez encontro em mim o cheiro que há
em teus lençóis.

Ilusão,
pois sei que não existe algo entre nós.

E eu não sei se os teus ouvidos estão
prontos pra me ouvir,
pois não te vejo mais não sei mais como você é...

Quis dizer
pra você

que nada vai fazer voltar
o tempo que eu perdi
tentando te falar
que eu não consigo respirar
com medo de chorar
de ouvir você falar
não...